quarta-feira, 30 de julho de 2008

O pobre e a pobreza, eu e a certeza (segurança)...


Nos dias 26 a 29 de julho um grupo de professoras da Rede La Salle concluiu seu programa de formacao. E o desafio era de construir um projeto de vida fazendo uma experiencia de insercao com os pobres. A casa escolhida foi o CEPA (Centro de Espiritualidade Padre Arturo) do bairro Santa Marta em Sao Leopoldo.
A mim coube a nobre missao de coordenar esse retiro. Nao foi um retiro na acepcao tradicional do termo - uma "fuga mundis" - mas ao contrario um mergulho no mundo do pobre.
Entre as muitas aprendizagens gostaria de partilhar apenas uma:
Eh impressionante como nos - os nao pobres - temos dificuldades para entender os pobres. Estou convencido de que grande parte dessa dificuldade provem das nossas certezas e segurancas. Certeza de que nao vai faltar luz, agua, comida, escola, roupa, internet, chuveiro eletrico, dinheiro... certeza de quando chove a casa nao alaga, a goteira nao aparece e o sapato nao vai sujar de barro...
Nao seriam as nossas segunrancas as responsaveis pela imcompreensao e julgamentos que fazemos do pobre? Por isso para "quebrar esse paradigma" nada melhor do que fazer a experiencia que o pobre faz com frequencia. Foi isso que tentamos fazer nesse fim de semana...
Cada um teve que se desarmar, abrir mao de suas certezas e segunrancas e mergulhar no mundo do pobre e da pobreza...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

CARTA AO INQUILINO

Senhor morador!

Gostariamos de informar que o contrato de aluguel que acordamos ha bilhoes de anos atras esta vencendo. Precisamos renova-lo, porem temos que acertar alguns pontos fundamentais:

1. Voce precisar pagar a conta de energia. Esta muito alta! Como voce gasta tanto?

2. Antes eu fornecia agua em abundancia, hoje nao disponho mais desta quantidade. Precisamos renegociar o uso.

3. Porque alguns na casa comem o suficiente e outros estao morrendo de fome, se o quintal é tao grande? Se cuidar da terra vai ter alimento para todos! (Hoje no mundo, ha 820 milhoes de pessoas passando fome; entre elas, 178 milhoes de criancas, conforme dados da FAO de 05/06/08)

4. Voce cortou as arvores que dao sombra, ar e equilibrio. O sol esta quente e o calor aumentou. Voce precisa replantar novamente!

5. Todos os bichos e as plantas do imenso jardim devem ser cuidados e preservados. Procurei alguns animais e nao os encontrei. Sei que quando aluguei a casa eles existiam...

6. Precisam verificar que cores estranhas estao no ceu! Nao vejo o azul!

7. Por falar em lixo, que sujeira, hein??? Encontrei objetos estranhos pelo caminho! Isopor, pneus, plasticos...

8. Nao vi os peixes que moram nos rios e lagos. Voces pescaram todos? Onde estao?

Bom, é hora de conversarmos. Preciso saber se voce ainda quer morar aqui. Caso afirmativo, o que voce pode fazer para cumprir o contrato?

Gostaria de ter voce sempre comigo, mas tudo tem um limite.

Voce pode mudar?

Aguardo resposta e atitudes.
Sua casa, A TERRA

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Rezar pra chover...

O final de semana que passou passei de novo num lugar que povoa todo o meu imaginario infantil e adolescencial... depois de dois anos e meio, voltei a comunidade onde eu vivi os anos mais importantes da minha vida. Os leitores do blog, ja sabem, to falando de Santo Cristo, mais precisamente a Comunidade da Vila Sirio.

Por la o povo aspirava ardentemente por chuva pois toda a regiao depende da producao agricola. Ao participar da Celebracao da Palavra no domingo pela manha me chamou atencao o numero de vezes em que se rezou "para uma boa chuva". E como se nao bastasse o evangelho era o da Samaritana, entao parecia que tudo calhava pra esse apelo incessante de agua - no sentido literal - assim como fez a samaritana.

Fiquei muito bem impressionado com a fé da comunidade. Com o modo como foram dirigidos esses apelos a Deus. Mas algo em mim dizia que o foco da oracao nao deveria ter sido Deus, em primeira pessoa...

Li na Biblia, no me lembro direito em qual livro, que Deus faz chover sobre justos e injustos. Conversei com muitas pessoas da regiao e algumas diziam que a chuva era urgentissima... outras diziam que chovia regularmente. No meu modo de ver todos poderiam ser enquadrados na categoria justos, no entanto a chuva para alguns faltava... Porque Deus teria preferido uns e deixado fora outros? Tava ele querendo testar a fé? Ou Ele viu alguma coisa que nao gostou e se vingou deixando eles na seca?

Essas perguntas sao sem sentido. Nao sao nem mesmo retoricas...

Estou convencido que o problema da falta de chuva nao é um problema de Deus. Ele criou o mundo e criou o jardineiro e a sua companheira pra cuidarem (conhecem o mito do cuidado??)... é por isso que eu penso que se deveria rezar mais pelo zelador do jardim do que pelo criador dele... Se falta a chuva, se o rio ta poluido, se o sol da cancer de pele é porque falta cuidado com o mundo...

Nao é um problema teu, meu ou do vizinho: é nosso. é um pecado da humanidade!!!

Se eu entendi bem as primeiras paginas do Genesis, depois da criacao a chuva ou a sua falta é um problema nosso...Concentremos, portanto, nossas oracoes na recuperacao da dimensao do cuidado que caracteriza cada ser humano.

Se vc é de acordo, releia aquelas paginas e poste aqui seus comentarios...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Arrivederci, Roma...


Arrivederci Roma
Renato Rascel

T'invidio turista che arrivi,
t'imbevi de fori e de scavi,
poi tutto d'un colpo te trovi
fontana de Trevi ch'e tutta pe' te!
Ce sta 'na leggenda romanalegata
a 'sta vecchia fontanaper cui se ce butti un soldino
costringi er destino a fatte tornà.
E mentre er soldo bacia er fontanonela tua canzone in fondo è questa qua!

Arrivederci, Roma...Good bye...au revoir...
Si ritrova a pranzo a Squarciarelli
fettuccine e vino dei Castelli
come ai tempi belli che Pinelli immortalò!

Arrivederci, Roma...Good bye...au revoir...
Si rivede a spasso in carozzella
e ripenza a quella "ciumachella"
ch'era tanto bellae che gli ha detto sempre "no!"
Stasera la vecchia fontanaracconta la solita luna
la storia vicina e lontanadi quella inglesina col naso all'insù
Io qui, proprio qui l'ho incontrata...
E qui...proprio qui l'ho baciata...
Lei qui con la voce smarritam'ha detto:"E' finita ritorno lassù!"
Ma prima di partire l'inglesina
buttò la monetina e sussurrò:

Arrivederci, Roma...Good bye...au revoir...
Voglio ritornare in via Margutta
voglio rivedere la soffitta
dove m'hai tenuta stretta stretta accanto a te!
Arrivederci, Roma...Non so scordarti più...
Porto in Inghilterra i tuoi tramonti
porto a Londra Trinità dei monti,
porto nel mio cuore i giuramenti e gli "I love you!"

Arrivederci, Roma...Good bye...au revoir...
Mentre l'inglesina s'allontana
un ragazzinetto s'avvicinava nella fontana
pesca un soldo se ne va!Arrivederci, Roma!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Das coisas que aprendi...

Das coisas que aprendi…

Essa semana fecha um ciclo de dois anos e meio aqui na Italia. Durante todo esse tempo frequentei a Universidade Pontificia Salesiana para obter o titulo de Mestrado em Educacao com especializacao em Pastoral Juvenil... Morando em uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, como Roma, e havendo a possibilidade de conhecer outros paises é obvio que as aprendizagens ultrapassam a academia... A seguir alguns fragmentos desordenados de algumas coisas para mim muito importantes...

A primeira coisa que aprendi é que aqui não existe Mestrado como nos entendemos no Brasil. Existe a “Licenza” que corresponde, mais ou menos, ao Mestrado no Brasil...

Aprendi que Roma é uma cidade lindissima, (bem como toda a Italia) e que se torna ainda mais bela na medida em que conhece melhor a historia e na medida que o nosso olhar vai se convertendo...

Aprendi, com a ajuda de Tomas Luckmann, que a Europa é secularizada mas o europeus não. Quer dizer, a religiao é cada vez mais invisivel mas a dimensao religiosa do homem continua viva.

Aprendi que a Europa esta mundando de rosto, um rosto ainda não delineado... e que a causa pode de alguma maneira ser explicada ao egoismo generacional aliado ao grande numero de imigrantes asiaticos, africanos e latino-americanos...

Aprendi que são muitos os caminhos que levam ao Vaticano. E da onde eu morava qualquer um que eu escolhesse não demorava mais de 17min de caminhada... Mas são cada vez mais tortuosos e estreitos os caminhos do Vaticano até mim...

Em contato com pessoas de todos os continentes aprendi que os meus absolutos podem ser relativos para o outro. E que a única forma de realmente encontrar o outro (diferente de mim) é relativizando os meus absolutos (coloca-los entre parenteses). Por outro lado a única forma de viver serenamente nesse mundo (pos-moderno) é tendo valores que estao profundamente radicados em uma comunidade, e que é preciso crer que as instituicoes podem ajudar a mante-los.

Aprendi que todo o nosso saber (conhecimento) é interpretaçao. E que portanto não conhecemos as coisas como elas são, mas já sempre interpretadas e codificadas em uma linguagem carregada de significados profundamente arraigados em um contexto (tempo, cultura, simbolos, valores...).

Aprendi que a religiao não é um problema de Deus. É um fato humano e que a modernidade trouxe a religiao para dentro dos limites do mundo. Isso significa muita coisa, mas poderia ser resumido no seguinte: a religiao somente tera credibilidade e plausibilidade a medida que responder aos problemas do homem (suas angustias, suas dores, suas miserias e suas buscas)...

Aprendi que aquilo que os estudiosos chamam de “mal estar religioso da nossa civilizaçao” tem suas origens no Iluminismo e que somente dois seculos após, com o Vaticano II, surge uma resposta aceitavel. Pena que grande parte da Igreja vive como se não existisse esse Concilio... Por mal estar religioso entende-se o problema de indentidade do homem contemporaneo: se escolhe ser cristao entra em conflito com a modernidade, se opta por ser moderno conflitua com o cristianismo...

Aprendi que Deus é a maneira infinita de ser homem e que o homem é sempre um modo finito de ser Deus. A única forma de se aproximar de Deus é crescer em humanidade.
Aprendi que não se trata tanto de educar para acreditar em Deus mas educar para perceber quanto Deus cre em cada um de nos...

Aprendi que é preciso crer profundamente na juventude especialmente nos contextos de pobreza bem como nos lugares onde os jovens tendem a diminuir numericamente...

Aprendi que tudo o que eu aprendi somente tera valor se eu continuar aprendendo...

Aprendi ainda muitas outras coisas mas as que escrevi aqui me dao sufiencietes razoes par crer e esperar...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Colono sapiens santocristenses...




Eu, um bipede implume da vasta fauna humana, colorado e santocristense subi hje mais um degrau da escada sapiencial...


Obrigado a todos e a todas que de algum modo estiveram presentes...


Um abracao do,

Moa
PS.: Para os dois ou tres desatentos, santocristense é o adjetivo patrio do sujeito, no caso o colono, que nasce em Santo Cristo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Universalidade da Universidade


A semana romana foi marcada pelo incidente do "boicote" da ida do Papa a "Università La Sapienza" para a aula inaugural do ano letivo.
Alguns professores e alunos protestaram dizendo que o Papa nao poderia ir a uma universidade leiga, que isso seria a intromissao da Igreja etc e tal.
Moral da historia: o Papa renunciou ao seu discurso.
Teve porem o efeito contrario. Os estudantes catolicos, motivados pela diocese de Roma se mobilizaram e domingo estarao em peso na Praca Sao Pedro, para a oracao do Angelus. Sera uma grande manifestacao de apoio ao Papa, que como se viu na sua ultima aparicao publica estava muito mexido com essa situacao.
Eu tambem estarei la na praca. Nao somente para apoiar o Papa. Mas como um gesto simbolico do que significa para mim a universidade.
A universidade é por definicao aberta, universal e nao pode opor-se a nenhum tipo de pensamento. Pode e deve critica-lo, mas nao sem ouvir, sem conhecer.
Se os professores e universitarios tivessem escutado o discurso do Papa que se tornou publico e muito mais lido com a "censura" teriam honrado o nome UNIVERSIDADE E A SAPIENCIA.
Eh verdade que o Papa, mesmo nao querendo impor a fé, como diz no discurso que deveria ter pronunciado, nunca deixa de falar como Papa. O Papa é Papa e ponto. Eh Papa mesmo quando passeia nos jardins do Vaticano escutando Mozart no seu Ipod Touch Screen...
Mas o Papa de agora é considerado umas das pessoas mais inteligentes e cultas dos 6,6 bilhoes de seres humanos do planeta. Nao querer ouvi-lo nao parece uma atitude inteligente de quem esta na UNIVERSIDADE, ainda mais quando essa se chama "LA SAPIENZA" (A Sapiencia).
Eh por isso que domingo estarei ali, debaixo dessa janela...